Segundo o Doutor Gilmar Stelo, advogado e fundador do Stelo Advogados, a transparência empresarial ganhou espaço nas discussões sobre governança porque prestar contas não significa simplesmente divulgar o maior volume possível de informações. Empresas precisam demonstrar como decisões são tomadas, apresentar resultados e manter relações confiáveis com sócios, investidores e outros interessados, mas também devem preservar dados estratégicos e informações protegidas.
Leia mais a seguir!
Transparência não significa divulgar tudo
Uma empresa transparente não é necessariamente aquela que publica todos os seus documentos, contratos e decisões. A prestação de contas precisa considerar a finalidade da informação e quem tem legitimidade ou necessidade de acessá-la. Dados estratégicos, informações pessoais e conteúdos sujeitos a sigilo podem exigir tratamento diferente. Esse cuidado ajuda a evitar que a busca por transparência resulte na exposição indevida de informações que precisam permanecer protegidas.
Nas companhias abertas, esse cuidado é ainda mais relevante. A Comissão de Valores Mobiliários estabelece obrigações relacionadas à divulgação de informações periódicas e eventuais, além de orientar as empresas sobre práticas de governança e relacionamento com investidores. Em 2026, a própria CVM reforçou orientações sobre informações societárias e procedimentos de divulgação. O cumprimento dessas regras exige atenção aos prazos, aos conteúdos que devem ser comunicados e à forma adequada de disponibilizar essas informações ao mercado.
Por isso, como destaca o Doutor Gilmar Stelo, a transparência e exposição são conceitos diferentes. A primeira busca permite controle e compreensão das decisões; a segunda pode simplesmente ampliar o acesso a informações sem considerar sua finalidade ou seus riscos. Uma prestação de contas adequada precisa encontrar esse equilíbrio, garantindo acesso ao que é relevante sem comprometer dados que demandam proteção jurídica ou estratégica.
Quem precisa receber cada informação?
A prestação de contas também muda conforme o público envolvido. Sócios podem precisar conhecer resultados, decisões administrativas e movimentações relevantes. Investidores dependem de informações capazes de apoiar suas escolhas. Credores, parceiros comerciais e outros interessados podem ter necessidades diferentes. Definir previamente quais informações são relevantes para cada público contribui para uma comunicação mais objetiva e reduz dúvidas sobre a gestão da empresa.

De acordo com o Doutor Gilmar Stelo, essa segmentação ajuda a evitar dois problemas opostos. De um lado, está a omissão de informações relevantes, que pode dificultar a fiscalização e comprometer a confiança. De outro lado, está a divulgação desordenada, que transforma um grande volume de documentos em uma espécie de barreira para quem realmente precisa compreender a situação da empresa.
Prestação de contas precisa explicar decisões
Outro ponto importante, ressaltado pelo Doutor Gilmar Stelo, é que números isolados nem sempre permitem compreender o desempenho de uma organização. Relatórios e demonstrações podem apresentar resultados, mas a análise das decisões, dos objetivos e dos riscos ajuda a formar uma visão mais completa da gestão. Quando esses elementos são apresentados em conjunto, torna-se mais fácil entender não apenas o resultado alcançado, mas também os fatores que contribuíram para ele e os desafios que permanecem.
Essa lógica aparece também nas práticas institucionais de prestação de contas, que relacionam informações financeiras e operacionais a objetivos, resultados e mecanismos de controle. A CGU, por exemplo, descreve a prestação de contas como instrumento voltado à transparência, responsabilização e tomada de decisão. A apresentação organizada dessas informações permite acompanhar o cumprimento das metas e identificar eventuais desvios que precisam ser avaliados pela administração.
No ambiente empresarial, isso significa que informar não deve ser um exercício meramente formal. Quanto mais complexa for a decisão, maior pode ser a necessidade de explicar seus fundamentos, consequências esperadas e mecanismos de acompanhamento. Essa abordagem contribui para que sócios e demais interessados tenham condições de avaliar a gestão com maior clareza, sem depender apenas de resultados financeiros apresentados de forma isolada.