Pesquisa do Pew Research Center mostra como usuários recorrem à IA para sintomas, exames, diagnósticos e tratamentos.
A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta de produtividade e passando a ocupar espaço em uma área especialmente delicada: a busca por informações sobre saúde. Uma nova pesquisa do Pew Research Center, divulgada nesta terça-feira (25), mostra que uma parcela dos americanos já utiliza chatbots de IA para tentar entender sintomas, resultados de exames, diagnósticos e possibilidades de tratamento. O levantamento foi realizado entre 22 e 28 de junho de 2026, com 3.488 adultos, e revela que a tecnologia já entrou na rotina de pessoas que procuram respostas antes ou depois de conversar com profissionais de saúde. (Pew Research Center)
O avanço chama atenção porque o acesso imediato pode ser útil para organizar dúvidas, mas também aumenta a preocupação com respostas incorretas, interpretações equivocadas e decisões tomadas sem acompanhamento profissional. O debate interessa diretamente ao Brasil, onde a digitalização da saúde avança e o Ministério da Saúde vem ampliando projetos envolvendo inteligência artificial, dados e hospitais inteligentes. A questão central, portanto, não é apenas se a população vai usar IA para falar sobre saúde, mas como essa tecnologia poderá ser utilizada sem substituir a avaliação médica e sem comprometer a segurança do paciente.
Por que as pessoas estão usando inteligência artificial para falar de saúde?
A pesquisa do Pew mostra que a procura por informações médicas em chatbots não é um comportamento isolado. Em levantamento anterior realizado pelo instituto, 22% dos adultos americanos disseram obter informações de saúde de chatbots de IA pelo menos ocasionalmente, enquanto 7% afirmaram fazer isso com frequência. O uso é ainda maior entre adultos jovens: 32% das pessoas de 18 a 29 anos disseram recorrer pelo menos algumas vezes a ferramentas como ChatGPT ou Gemini para obter informações relacionadas à saúde. (Pew Research Center)
A nova pesquisa ajuda a explicar por que esses usuários recorrem às ferramentas. Entre os motivos estão tentar entender possíveis diagnósticos, aprender mais sobre resultados laboratoriais e buscar informações sobre tratamentos. A facilidade de fazer uma pergunta em linguagem comum, receber uma resposta rapidamente e continuar a conversa sem precisar marcar uma consulta pode tornar o recurso atraente para quem está diante de uma dúvida. O problema aparece quando a praticidade é confundida com precisão clínica: um chatbot pode organizar informações e explicar conceitos, mas não possui, por si só, o exame físico, o histórico completo e o contexto clínico necessários para tomar uma decisão médica individualizada. (Pew Research Center)
Outro dado importante é a percepção positiva de quem já utiliza essas ferramentas. O Pew aponta que quase todos os usuários de chatbots que buscaram informações de saúde consideram que as respostas recebidas foram úteis. Isso ajuda a explicar por que a prática tende a ganhar espaço, mesmo diante das preocupações existentes. Para o usuário, uma resposta clara pode parecer suficiente para diminuir uma ansiedade momentânea, esclarecer um termo médico ou preparar perguntas para uma consulta, mas utilidade percebida não significa necessariamente segurança ou exatidão da orientação. (Pew Research Center)
Essa diferença é fundamental porque a inteligência artificial pode produzir respostas convincentes mesmo quando interpreta incorretamente uma situação. Em saúde, uma informação apresentada de maneira segura e organizada pode levar o usuário a acreditar que recebeu uma avaliação individualizada, quando na realidade recebeu uma resposta baseada em padrões e informações disponíveis ao sistema. Por isso, especialistas e autoridades vêm defendendo mecanismos de transparência, supervisão humana e regras claras para determinar como a IA pode participar do cuidado. A Organização Mundial da Saúde também alerta para a necessidade de governança adequada enquanto ferramentas de IA avançam em diagnósticos e outros serviços de saúde. (Organização Mundial da Saúde)
IA pode substituir uma consulta médica?
A resposta é não, e essa distinção está no centro do debate sobre inteligência artificial na medicina. Chatbots podem ajudar o paciente a entender palavras técnicas, organizar sintomas para conversar com um profissional, pesquisar informações gerais sobre uma doença ou elaborar perguntas para uma consulta. Entretanto, essas funções são diferentes de realizar uma avaliação clínica, interpretar todo o histórico de uma pessoa ou definir um tratamento individualizado. A própria expansão da IA na medicina tem levado autoridades de saúde a discutir regras de responsabilidade, segurança, transparência e supervisão humana.
A preocupação também envolve a maneira como o paciente interpreta uma resposta. Uma pessoa com dor, febre, alteração em um exame ou outro sintoma pode procurar a IA antes de buscar atendimento, principalmente quando acredita que a situação não parece urgente. Se a ferramenta minimizar um sinal importante ou apresentar uma hipótese como se fosse uma conclusão, o usuário poderá atrasar a procura por assistência. Da mesma forma, uma resposta excessivamente alarmista pode provocar ansiedade desnecessária. A tecnologia, portanto, pode funcionar como uma camada de informação, mas não deve ser tratada como substituta do profissional responsável pelo diagnóstico e pelo tratamento.
A questão da transparência também ganhou destaque na pesquisa divulgada nesta terça-feira. Segundo outro levantamento do Pew Research Center, 72% dos adultos americanos consideram extremamente ou muito importante que um médico ou outro profissional de saúde informe ao paciente quando a inteligência artificial está sendo utilizada durante o atendimento. O resultado mostra que a população não está necessariamente rejeitando a tecnologia, mas quer saber quando ela participa de decisões ou processos relacionados ao próprio cuidado. (Pew Research Center)
Esse princípio pode se tornar cada vez mais relevante à medida que hospitais e sistemas públicos incorporam ferramentas digitais. No Brasil, o Ministério da Saúde informa que seis UTIs Inteligentes já estão em funcionamento em diferentes cidades, utilizando monitoramento contínuo, integração de equipamentos e inteligência artificial para apoiar a avaliação de riscos e a priorização do atendimento. Também existe um projeto-piloto de SAMU Inteligente em Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, com compartilhamento de informações clínicas durante o transporte do paciente. (Serviços e Informações do Brasil)
Como a inteligência artificial pode ser usada com mais segurança na saúde?
O uso mais seguro começa pela compreensão de que a IA deve ser uma ferramenta de apoio, e não a autoridade final sobre a saúde de uma pessoa. Para o paciente, isso significa utilizar os chatbots principalmente para compreender informações, preparar uma consulta e organizar dúvidas, evitando tomar decisões importantes apenas com base em uma resposta automática. Quando houver sintomas persistentes, sinais de gravidade, alteração relevante em exames ou necessidade de tratamento, a avaliação de um profissional continua sendo indispensável. A tecnologia pode ajudar na comunicação, mas não elimina a necessidade de atendimento médico.
Também é importante ter cuidado com os dados fornecidos às plataformas. Informações de saúde podem ser extremamente pessoais, e o usuário deve evitar compartilhar desnecessariamente documentos completos, imagens identificáveis, dados pessoais ou informações que não sejam necessárias para uma dúvida geral. O crescimento da saúde digital aumenta justamente a importância da proteção de dados, da governança e da definição de responsabilidades. A Organização Mundial da Saúde destaca que a expansão da IA precisa caminhar acompanhada de mecanismos capazes de enfrentar problemas como vieses, falta de transparência, governança de dados e lacunas regulatórias. (Organização Mundial da Saúde)
No Brasil, esse debate acompanha uma transformação mais ampla do sistema de saúde. O Ministério da Saúde lançou neste mês uma nova seleção do PET Saúde Informação e Saúde Digital, voltada ao desenvolvimento de projetos de pesquisa, inovação, soluções digitais, interoperabilidade e uso de dados no SUS. A iniciativa mostra que a tecnologia não está sendo discutida apenas no ambiente privado, mas também como parte da modernização dos serviços públicos. O desafio será garantir que inovação e velocidade não avancem mais rapidamente do que os mecanismos de segurança necessários para proteger pacientes e profissionais. (Serviços e Informações do Brasil)
Para quem usa inteligência artificial no dia a dia, a regra mais simples continua sendo tratar a resposta como informação inicial, e não como diagnóstico. Um chatbot pode ser útil para explicar um termo médico ou ajudar alguém a chegar mais preparado a uma consulta, mas não deve determinar sozinho se uma pessoa precisa ou não de atendimento. Quanto mais a IA entrar nos hospitais, consultórios e celulares, mais importante será saber onde termina a conveniência tecnológica e começa a responsabilidade clínica.
A tendência apresentada pelas pesquisas indica que a procura por informações de saúde em ferramentas de inteligência artificial deve continuar crescendo. O desafio agora é transformar essa popularização em um uso responsável, com transparência, proteção de dados e supervisão profissional. Para o paciente, isso significa aproveitar o que a tecnologia oferece sem abandonar a principal referência quando o assunto é cuidado individual: a avaliação de profissionais capacitados. (Pew Research Center)