Terapias alternativas no câncer de mama podem reduzir sobrevida, aponta estudo com 2,1 milhões de mulheres

Diego Velázquez
Diego Velázquez Brasil
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Pesquisa publicada no JAMA Network Open encontrou maior mortalidade entre pacientes que utilizaram medicina complementar e alternativa, especialmente quando houve substituição ou menor adesão aos tratamentos oncológicos convencionais

Um amplo estudo envolvendo mais de 2,1 milhões de mulheres com câncer de mama encontrou associação entre o uso de medicina complementar e alternativa e uma menor sobrevida. A pesquisa analisou pacientes diagnosticadas nos Estados Unidos entre 2011 e 2021 e reforça o alerta sobre os riscos de abandonar ou reduzir tratamentos oncológicos cuja eficácia já foi comprovada cientificamente. (JAMA Network)

O trabalho foi publicado em março de 2026 na revista científica JAMA Network Open. Os pesquisadores utilizaram informações da National Cancer Database, um dos maiores bancos de dados sobre câncer dos Estados Unidos, para comparar os resultados de diferentes grupos de pacientes. (PubMed)

Foram consideradas terapias tradicionais modalidades como cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapia endócrina e imunoterapia. A análise comparou pacientes submetidas aos tratamentos tradicionais com mulheres que também recorreram à medicina complementar e alternativa e com aquelas que não receberam tratamento. (JAMA Network)

Uso exclusivo de terapias alternativas chama atenção

Um dos resultados mais importantes envolve as mulheres que recorreram às práticas alternativas sem realizar o tratamento convencional recomendado. Embora esse comportamento tenha sido raro dentro da população analisada, essas pacientes apresentaram risco de morte mais de três vezes superior ao das mulheres tratadas exclusivamente com terapias convencionais. (Folha de S.Paulo)

A pesquisa é observacional. Isso significa que os dados mostram uma associação entre escolhas terapêuticas e sobrevida, mas não permitem afirmar que determinada prática alternativa, isoladamente, tenha causado as mortes. Outros fatores relacionados às pacientes e às decisões sobre tratamento também podem influenciar os resultados.

Ainda assim, os pesquisadores identificaram um ponto especialmente relevante: pacientes que utilizavam medicina complementar e alternativa também podiam apresentar diferenças na adesão aos tratamentos convencionais. A redução ou interrupção de terapias comprovadas pode comprometer o controle da doença e influenciar diretamente as chances de sobrevivência. (JAMA Network)

Radioterapia e terapia endócrina estão entre os pontos de atenção

Entre as pacientes que combinaram abordagens complementares ou alternativas com o tratamento tradicional, o estudo encontrou menor adesão à radioterapia e à terapia endócrina. Dependendo das características do tumor, essas modalidades são importantes para reduzir o risco de retorno da doença e melhorar os resultados do tratamento. (Folha de S.Paulo)

Isso ajuda a explicar por que especialistas fazem uma distinção importante entre terapias complementares e alternativas. Uma prática complementar é utilizada junto ao tratamento médico indicado, geralmente com o objetivo de controlar sintomas ou melhorar a qualidade de vida. Já uma terapia alternativa é empregada no lugar de uma abordagem convencional.

Essa diferença é fundamental. Algumas práticas complementares podem ter espaço no cuidado oncológico quando avaliadas pela equipe médica. Exercícios físicos supervisionados, meditação, determinadas aplicações de acupuntura e outras estratégias podem, em situações específicas, auxiliar no controle de sintomas e no bem-estar durante o tratamento. (Folha de S.Paulo)

Métodos sem comprovação não devem substituir tratamento

O problema surge principalmente quando métodos sem eficácia antitumoral demonstrada passam a substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapia endócrina ou outras intervenções recomendadas para aquela paciente.

Entre as abordagens sem respaldo científico citadas na repercussão do estudo estão dietas apresentadas como capazes de combater tumores, megadoses de vitaminas, determinados suplementos, protocolos de desintoxicação e outras práticas comercializadas com alegações de eliminar ou controlar o câncer sem evidências clínicas suficientes. (Folha de S.Paulo)

Além do risco de atrasar um tratamento eficaz, determinados produtos podem interagir com medicamentos utilizados durante o tratamento oncológico. Suplementos e outras substâncias podem afetar quimioterápicos, hormonioterapia, anticoagulantes, anestésicos ou medicamentos empregados para controlar efeitos adversos. Por isso, especialistas recomendam que qualquer produto ou terapia adicional seja informado à equipe responsável pelo tratamento. (Folha de S.Paulo)

Por que pacientes procuram tratamentos alternativos?

A procura por medicina complementar e alternativa no câncer não é um fenômeno novo. O próprio artigo científico aponta que diferentes fatores podem estar associados a essa escolha, incluindo busca por controle de sintomas, prevenção de doenças e fortalecimento do organismo. Valores ligados a uma visão mais natural ou holística da saúde e desconfiança em relação ao sistema de saúde também já foram associados ao uso dessas práticas. (JAMA Network)

O medo dos efeitos colaterais dos tratamentos convencionais é outro ponto relevante. Cirurgias, quimioterapia, radioterapia e terapias hormonais podem provocar efeitos adversos, e algumas pacientes procuram alternativas na expectativa de encontrar tratamentos considerados menos agressivos.

Essa decisão, porém, pode trazer consequências quando leva ao atraso, interrupção ou abandono de uma terapia comprovadamente capaz de reduzir o risco de recorrência e morte.

Estudo analisou uma década de diagnósticos

A dimensão da pesquisa é um dos fatores que dão peso aos resultados. Os pesquisadores analisaram informações de mulheres diagnosticadas com câncer de mama entre 2011 e 2021 registradas na National Cancer Database. A análise estatística dos dados foi realizada entre maio e dezembro de 2025. (JAMA Network)

O artigo, intitulado Use of Complementary and Alternative Medicine in the Management of Breast Cancer, foi publicado no volume 9, número 3, do JAMA Network Open em 2026. (PubMed)

Por se tratar de um estudo de coorte baseado em registros clínicos, os resultados devem ser interpretados dentro das limitações desse tipo de pesquisa. Mesmo assim, a enorme quantidade de pacientes permite observar diferenças importantes nos padrões de tratamento e na sobrevivência.

Resultado reforça importância do acompanhamento médico

A principal mensagem não é que toda prática complementar deva ser descartada. O ponto central é que estratégias adicionais precisam ser avaliadas de acordo com evidências científicas e não devem substituir tratamentos capazes de aumentar as chances de controle ou cura do câncer.

Quando utilizadas de maneira integrada e acompanhadas por profissionais de saúde, algumas práticas complementares podem auxiliar no manejo de sintomas e na qualidade de vida. O risco aumenta quando métodos não comprovados levam a paciente a abandonar ou adiar tratamentos necessários. (Folha de S.Paulo)

O estudo amplia uma discussão particularmente importante em um momento em que informações sobre dietas, suplementos e supostas terapias contra o câncer circulam rapidamente pelas redes sociais. Para pacientes e familiares, a recomendação é discutir qualquer tratamento complementar com o oncologista antes de iniciar ou interromper uma terapia.

No caso do câncer de mama, no qual diferentes subtipos da doença exigem estratégias específicas, decisões terapêuticas individualizadas e baseadas em evidências continuam sendo fundamentais para aumentar as chances de controle da doença e sobrevivência.

Fontes:
JAMA Network Open — estudo original · PubMed — registro científico do estudo · Folha de S.Paulo — repercussão publicada em 11 de agosto de 2026

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